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Há tempo considerável estou ausente do blog. Desde a promessa de traçar um roteiro detalhado sobre os locais interessantes da Avenida Paulista, até a atual volta aos pensamentos e sentimentos – colocados por escrito – em relação à cidade, muitas coisas aconteceram… Mesmo sem encontrar tempo para me concentrar na escrita blogueira, continuei vivendo as aventuras que só São Paulo pode nos apresentar. E foi a partir de uma mudança repentina na rotina que tive a vontade de contar, aqui, o dia a dia de quem tem a sorte de vivenciar o centro da megalópole mais multicultural do país.

Como já dizia Caetano…

Perdoem-me o estereótipo, mas foi exatamente assim que comecei minha jornada pelas ruas do centro da cidade: cruzando a Av. Ipiranga. Lá me dei conta de que a arquitetura paulistana, a gente que caminha em meio ao trânsito, os personagens que encontramos pelo caminho, o metrô lotadíssimo, os passos rápidos, as cenas que pululam durante as horas, tudo rende muito assunto, muita história pra contar…

Só no primeiro dia, tive a sorte de enxergar inspiração e coragem no brilho do sol banhando as paredes amarelas da Secretária de Educação, que coroa suntuosa a Praça da República. Encontrei mil lugares úteis espalhados em apenas três quarteirões: bancos, lotéricas, padarias, biroscas, bares, lojas, restaurantes, e a importante máquina de revelar fotos 3×4 em míseros 2 minutos. Sim, a manhã pedia um registro fotografado, e assim saí nos quadradinhos, orgulhosa de estar frequentando o centro executivo da capital.

Diga xis!

Depois do flash, hora de enfrentar o metrô. Essa é, indiscutivelmente, uma prova de resistência das boas. O salto alto atrapalha, a bolsa atrapalha, o esquecimento de ter comprado o bilhete deixa tudo pior ainda! Pois entrar no metrô República na hora em que todos saem do serviço é missão quase impossível. Para passar na catraca, fila. Para chegar ao vagão fila.

Para deixar tudo mais pitoresco, tive a proeza de me confundir. Quando a escada rolante me levou à plataforma, agradeci pela sorte do destino: eu iria pegar o metrô no sentido Barra Funda, e não no sentido Itaquera, desejo de centenas de outros transeuntes.

Pois ledo engano… Já dentro do vagão, confortável e feliz da vida, veio o lampejo. A direção correta era justamente a contrária!

Ok, fácil, era só descer na próxima estação. Fácil seria se ninguém precisasse esperar longos e intermináveis 20 minutos para colocar o nariz para dentro do metrô. Na Estação Santa Cecília, a tarefa de andar de metrô torna-se missão praticamente impossível!

Ainda bem que tinha minhas lembranças para me acompanhar. Em rápidas 48 horas, vi um rapaz acalentando um gatinho, pequenino de tudo, dentro da jaqueta. Ele cruzou comigo enquanto atravessávamos a rua. O filhotinho parecia nem perceber a barulheira do trânsito que nos cercava…

Vi também a senhora bem arrumadas, parecendo ter vindo de um concerto no Theatro Municipal em 1950: cabelos impecavelmente penteados, casado de veludo até as canelas, maquiagem realçando os traços que só a maturidade nos traz. Estava parada, junto com uma amiga, na frente de uma loja aristocrática de roupas femininas.

Vi também que o Copam e o Edifício Itália são mais vizinhos do que pensava. Vi os policiais acordando seis ou setes pessoas que dormiam ao pé de uma banca de jornal. Vi vários adolescentes empurrando os passageiros cansados quando saíam sorridentes da escola. Vi os pés de milhares de passageiros, e as botinas militares do senhor com sua arma escondida sob o casaco verde-exército.

Conheci ainda um garçom super simpático, que serve um P.F. de 8 Reais como se estivesse servindo o Presidente da República! Há mais do que amor em São Paulo, há gentileza. Tomara que ela vai me acompanhe por muitos momentos nessa nova caminhada pelo centro da paulicéia (assim mesmo, com acento agudo, como no original) desvairada. Assim, tomo coragem para voltar a dividir aqui as impressões que sinto enquanto vivo a cidade.