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O título parece assustador. Talvez mais assustador do que o merecido. Mas nada me tira da memória essa imagem: um circo de horrores, feridas, sangue e pessoas cumprindo tabela no que é, quem sabe, o pior afazer da tão esperada noite de ano novo.

Ó céus, onde teria eu visto cena desse calibre? No Rèveillon. Sim, no Rèveillon!

Pelo segundo ano da minha vida decidi virar o ano em Copacabana, cercada de milhares de desconhecidos e poucos queridos amigos (como relatado no texto anterior). Como 2011 foi um ano sui generis, repleto de surpresas – tão alegremente deliciosas – nem poderia supor que só havia uma maneira de fechá-lo com chave de ouro. Porém, com um contratempo fora do script. A caminhada até a praia, minutos antes da meia noite, foi brindada com uma topada no chão. Enquanto cumpria os passos felizes de quem já havia estourado o espumante, uma distração fez com que aparecesse uma pedra no caminho. Porque no meio do caminho havia várias pedras, pedregulhos, calçadas, poças, ratos andando apressados por entre a multidão. Mas nenhuma pedra no meu caminho foi mais dolorida nessa vida do que a pontudinha capaz de rachar meus ossos ao meio.

Pé batido, dor estalada, inchaço aparecido, fogos devidamente estourados no céu. Muito pior do que topar o dedinho no canto da cama é rachar o cantinho do osso do terceiro dedo do pé – segundo meu ortopedista contou depois. Diante da roxidão evidente do dedo maltratado em pleno Rèveillon, só me sobrou uma alternativa: procurar sombra e água fresca no pronto atendimento localizado embaixo de grandes tendas brancas ao longo da praia mais famosa desse meu Brasil. E até agora fico me perguntando se foi um erro ou um acerto ter entrado em 2012 com o pé direito (graças ao bom destino, o pé adoecido é o esquerdo…) adentrando o posto médico?!

Dúvida cruel

Erro nada. Cinco minutos ali bastaram para que o faro jornalístico não me deixasse em paz. Mauricio Kubrusly deveria levar seu humor nonsense para os postos médicos de Copacabana. A televisão deveria mostrar o que é aquilo. Um horror!

Entrei com os olhos lacrimejantes, o pensamento tentando compreender o acontecido, e uma vontade enorme de encontrar gelo fresco e saudável, para curar o roxo do pé latejante. Mas o guarda me encaminhou para o setor de preenchimento de fichas. Nome dado, idade, razão de ter tido coragem para adentrar o recinto. “Você está com sorte: temos um ortopedista aqui!”. “Ufa, estou salva. Só tirar um raio-x, esclarecer a pancada e aplicar um gelinho no machucado”. Ai, ai, devia estar delirando. Pensando agora, lucidamente, ele devia era estar tirando um sarro da minha cara.

A próxima parada foi a mesa de uma mocinha maquiada e sorridente. Outras 8 ou 10 mesas ocupavam o setor de preenchimento de ficha 2. Sim, porque a única certeza que tenho é que aqueles postos de atendimento médico existem para entrar nas estatísticas. Os médicos e enfermeiros dali são especialistas em preencher corretamente a ficha, escrevendo exatamente o diagnóstico dado pelo paciente.

“Estou bêbado, preciso de glicose”. “Paciente bêbado, aplicar glicose”. Parecia um ditado. Péssimo!

Aí veio a parte circense da história. Ela me disse: vem comigo e sente-se na maca. Um homem soltou um urro de dor. Todos riram e disseram “deixa ele aí quieto, logo acaba”. O mumificado adormeceu imediatamente, diante dos meus olhos esbugalhados de espanto. Isso porque o cidadão à frente só queria saber do balde colocado à sua frente. Branco feito fantasma, é certo que ele nunca vai se esquecer desse Rèveillon (ou se lembrar, enfim…). à minha direita, uma menina aparentando uns 20 anos tinha manchas de sangue no vestido outrora branco feito papel. As marcas cobriam a parte de baixo do pano. Foi eu sentar na maca, o namorado exclamou “amor, fica tranquila, vou tirar sua calcinha”. O cheiro de vômito ambiente bateu no meu nariz, eu não queria saber porque aquela menina tinha tanto sangue na região do bumbum, disparei na hora “preciso sair daqui”. A enfermeira “não, você precisa esperar eu limpar”. O cheiro de vômito aumentou nas narinas. “Se eu não sair agora vou vomitar e ser mais alguém dando trabalho pra vocês”, ameacei.

OK, voltei para a cadeirinha dos que não tem nada. Outra enfermeira bem mais velha veio jogar água no meu pé. “Aqui não temos gelo”. A água suja de areia caiu em um balde de lixo cheio de gases ensanguentadas. Estava difícil suportar aquele começo de ano.
O namorado saiu para lavar minha sandália – também repleta de areia. Eu fiquei pasma, olhando ao redor, vendo os uniformizados com avental falando no celular, enviando mensagens, gritando votos de felicidades para parentes distantes, vencendo as típicas falhas de ligação da noite em Copacabana.

Para finalizar o circo de horrores, um menino de boné entrou desesperado, perguntando pelo amigo. Como se estivesse sendo incomodado, o rapaz do preenchimento de fichas 1 olhou para ele. “olha aí nessa fichas, procura o nome do meu amigo por favor”. Folheando preguiçosamente o chumaço de papel, o rapaz ouvia a aflição do menino. “estamos procurando em todos os postos, meu amigo sumiu faz uma hora!”.

Assim é: enquanto muitos brindam felizes, sambam ao som das bandas em Copacabana, abraçam suas famílias, outros começam o ano perdidos pela praia, ou deitados em uma maca improvisada. Eu só sei que nesse ano quero minha cama quentinha, longe das chuvas de verão, perto dos meus. Porque a sorte de mais um ano memorável não depende de pular as sete ondinhas…