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Depois de quase um mês morando na África do Sul, começo a compreender a barreira cultural que insiste em permanecer erguida entre os diferentes povos daqui. Por mais que grandes mudanças tenham ocorrido ao longo do tempo, o que vi e ouvi de diferentes pessoas comprova a sensação de que muito mais tempo será necessário para que o ser humano entenda que a diversidade de pessoas está longe de significar superioridade ou inferioridade de raças.

Acredito que a parte mais complicada em toda essa história de discriminação e preconceito é justamente a maluca definição que os sul-africanos atribuem para as pessoas. Entre eles, há os “black”, os “white” e os “coloured”. Todos aqueles que não são daqui são genericamente chamados de “foreigners”. Ou seja, estamos no limbo da sociedade, pois só quem é nascido na África do Sul entra nessa divisão mentalmente estabelecida.

Passei alguns dias tentando identificar qual é a sutil diferença entre uma pessoa “coloured” e uma pessoa “black”. Talvez a melhor conclusão a que possamos chegar é que não temos negros no Brasil. Ao menos se usarmos a visão de um sul-africano.

Um bocadinho de prosa

Para entender melhor esse pensamento que gere o status quo, só vivenciando um pouco do dia-a-dia deles. Para saber quando você está fazendo algo totalmente fora do normal, basta ficar atento ao comportamento alheio. 

Percebi claramente que estou fora das regras há duas semanas, quando eu torci o pé enquanto corria para pagar o taxi e evitar chegar mais atrasada ainda a um compromisso importante. Isso me fez perder algumas boas horas, e alguns bons Rands, no hospital. Em troca, ganhei um par de muletas que me acompanharam por cinco dias em minhas andanças por aqui. Porque é claro que faltava-me tempo para ficar parada, então não sucumbi diante das minhas novas companheiras…

Enquanto tentava imaginar o que poderia ser pior do que um pé torcido e inchado, veio uma quinta-feira chuvosa para alegrar o meu dia. Em meio à chuva fria de uma manhã de inverno, procurei refúgio dentro da portaria enquanto esperava o táxi. Naturalmente, uma vez sentada na cadeira do porteiro, puxei uma prosa. Algo banal, do tipo: “chuva chata, essa, né?!”

Eles me responderam com certa desconfiança. Explicaram que as chuvas nesse ano vieram com umas três semanas de atraso, e que o clima anda mudando bastante. Nenhuma novidade em qualquer parte do mundo, imagino. Durante os dez minutos que passei ali dentro da “casa dos porteiros”, senti um tom estranho nos olhares e nas respostas às minhas curiosidades.

Porém, só fui entender o que fiz quando contei essa história para uma amiga que mora aqui desde fevereiro. Ela me disse que provavelmente em toda a vida de “porteiro” deles, nenhum morador cogitou a hipótese de conversar com eles, muito menos entrar na portaria, sentar na cadeira deles e puxar uma prosa.

Ainda não sei se acho mais estranho ninguém parar dois minutinhos para falar sobre o tempo com os porteiros, ou se creio ser mais esquisito eles reagirem como se isso fosse absolutamente anormal. O que sei é que muitas gerações ainda precisam passar por essa sociedade para que o sonho da igualdade plena entre as pessoas torne-se realidade.