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Depois da reportagem sobre Aparecida, no interior de São Paulo, ficou difícil deixar de lembrar a vizinha Guaratinguetá, terra de Frei Galvão.

Por enquanto, decidi publicar aqui uma matéria – que fiz com muito carinho – do ano passado. Na éapoca, o Chef Homero ainda comandava as panelas da cozinha do Restaurante Bistrô Estação. Era um dos meus lugares preferidos na cidade.

Agora a casa está sob nova direção. Enquanto espero para conhecer o novo restaurante, fico feliz em saber que continuam mantendo a beleza do importante Patrimônio Histórico de uma cidade que tem muita história pra contar.

Restaurante Estação fica na casa que já hospedou Euclides da Cunha

Aqui morou Euclides da Cunha. Está escrito no cardápio do Restaurante Estação, em Guaratinguetá. Euclides da Cunha, aquele mesmo, ilustre jornalista e autor do clássico “Os Sertões”. Parece estranho, mas é verdade. A leitura de biografias sobre o autor revela que ele andou mesmo por ali. Euclides da Cunha também era engenheiro. Como funcionário da antiga Estação Ferroviária Central do Brasil, Euclides da Cunha teria passado alguns meses na casa amarela. 

Porém não é o famoso hóspede que hoje atrai olhares para esse cantinho do centro da cidade. A atração principal é o conjunto arquitetônico tombado pelo CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo).

O cenário é único. Na simpática Praça Condessa de Frontin, com um pouco de imaginação, parece que estamos no começo do século passado. Árvores centenárias ajudam a criar o clima guardado na lembrança de antigos moradores. Faltam só senhores de cartola na cabeça e elegantes damas passeando sob o guarda-sol.

À frente da praça está a estação de trem. Construído em 1914, o prédio foi restaurado em 2008 após anos de abandono. A arquitetura é baseada nos projetos da Inglaterra do século XIX. É difícil resistir a tirar uma foto da estação novinha em folha, aberta para visitação de segunda a sexta-feira, das 14 às 17 horas, e aos sábados, das 10 às 14 horas.

A casa ao lado é mais antiga. Erguida em 1889, o restaurante foi da Estação Ferroviária Central do Brasil, onde moravam funcionários e o chefe da estação, responsável pelo vai e vem dos trens. Nos tempos áureos do Vale do Paraíba, o café colhido em Minas Gerais chegava em comboios e seguia para o porto de Santos ou para o Rio de Janeiro.

Guaratinguetá está quase no meio do caminho entre a antiga capital federal e São Paulo. Os deuses foram generosos com a “terra das garças brancas”. Deram-lhe São Frei Galvão, nascido na cidade em 1739 e primeiro santo brasileiro. As opções de divertimento são poucas… e o Restaurante Estação é especial.

Quando o centro da cidade emudece e vê a tarde cair, a casa abre suas portas para receber amigos e clientes. Durante a noite, ganha vida. Famílias e amigos escolhem o lugar para festejar encontros e celebrar. De longe parece um barzinho no meio da madrugada. Porém, a construção colonial encanta mesmo aos olhos.

Às vezes recebe visita internacional. Em uma das mesas, o francês Micael Bonan, 35 anos, professor de física, está admirado com a beleza do restaurante. “Não perde em nada para a França”, admite.

Na varanda, o médico Luiz Azevedo, 68, diz que gosta muito de ir ao restaurante quando vem de São Paulo. Dessa vez ele trouxe a filha. “Nunca tinha vindo”, diz a cidadã guaratinguetaense Lola Azevedo, 28, dentista.

Perto da porta, a chef de cozinha do Restaurante Shirley da Silva, 39, aproveita a licença médica para se divertir com as amigas. “Gosto daqui porque sou paparicada”, conta feliz.

Na mesa ao lado, um grupo de amigos aproveita o feriado para se encontrar. Existe um motivo especial para estarem aqui. “Viemos para ver o Homero”, conta a advogada Ana Helena, 33 anos. “Somos amigos de infância”.

Homero Rodrigues Leite Filho, 33 anos, é o dono do restaurante. Ele já andou por meio mundo e há três anos decidiu abrir o charmoso bistrô. “Quis voltar para cá porque minha vida estava muito estressante”, conta. E devia estar mesmo. Sem perder o fôlego, ele narra sua trajetória. “Eu sempre gostei de culinária porque via minha avó, cozinheira de mão cheia, fazendo comida na fazenda para os meus amigos. Já morei na Austrália, onde fiz o curso de culinária asiática no colégio William Andrews, em Melbourne. Depois morei três anos em Paris e estudei a culinária francesa clássica na Cordon Bleu. Antes de voltar para o Brasil, viajei durante seis meses pela Espanha e fui para Londres. Lá eu trabalhei como chefe em quatro restaurantes”. Depois das andanças, decidiu mostrar os dotes culinários em sua terra natal.

A boa comida preparada pela equipe do Homero pode ser degustada toda quinta, sexta e sábado, a partir das 18 horas. Para inaugurar o espaço, ele precisou fazer uma grande reforma na construção. “Foi complicado porque a casa é tombada como patrimônio e já estava muito modificada”. Com tantos séculos de vida e parte da história de muita gente, a casa amarela sobreviveu ao tempo e às investidas do antigo proprietário.

Promotor de justiça na época da destruição, João Carlos Maia recorda-se bem do processo, quando a Central do Brasil vendeu o imóvel em leilão e o novo dono começou a demolir tudo. “Era a melhor casa da cidade”, lembra o promotor.

Homero conseguiu restaurar o que restou da planta original. As janelas, portas e os tijolos são originais. “As mudanças na casa não poderiam ter sido feitas. Mas a maioria das pessoas daqui vai no meio da noite com a marreta e derruba tudo. Não estão nem aí com nada”, desabafa.

O restaurante é projeto da arquiteta Letícia Tuner. Ela construiu um arco no meio do salão para reforçar a estrutura antes danificada. As paredes receberam painéis desenhados com croquis da planta da casa e da estação de trem.

Trechos de poesias dão o delicado toque final à idéia. “A intenção é fazer uma aulinha de arquitetura”, comenta Letícia. Para ela, a imagem da estação reflete a nostalgia de quem a conhece há anos.

A necessária restauração pode ter sido impulsionada pelo movimento nessa parte da cidade desde que Homero abriu seu restaurante. “Pode parecer petulância falar que sim. Ao mesmo tempo, acho que seria bobagem minha dizer que não teve influência nenhuma”, opina o dono do bistrô. “Chegou a um ponto que a estação ia cair mesmo, foi uma questão de fazer isso agora ou não fazer mais”. Antes tarde do que nunca, felizmente deu tempo para salvar mais um patrimônio histórico do país.