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Algumas horas de passeio bastam para perceber a qualidade do Catavento Cultural, espaço paulistano de exposições. Voltei a este assunto porque ainda não havia falado sobre tudo o que vi por lá. E não foi pouca coisa…

Lembrei-me de outros passeios (em 2007 e 2009) nos grandiosos edifícios que abrigam os museus do Instituto Smithsonian, em Washington D.C., Estados Unidos. Lá são dezenas de construções espalhadas pela cidade. Cada uma é dedicada a abordar um tema. Arte, história natural, tecnologia… Têm para todos – ou para a maioria – dos gostos.

Tirando as impressionantes coleções de fósseis, pedras preciosas, explicações e mais explicações para a origem do universo, da vida, da inteligência espacial humana, o que mais ficou gravado na memória foi o quadro pendurado em um parede escondida da National Portrait Gallery. No mês da posse do primeiro presidente negro americano, a imagem ao lado serviu como emblema e marca da campanha eleitoral pela esperança.

Voltando ao Brasil, o Catavento funciona como o lugar onde toda megalomania foi condensada em um único espaço que, aliás, não é pequeno. Dentro das paredes do prédio construído no século passado cabem mais do que painéis explicativos e curiosidade infantil.

Astros e estrelas

No espaço Vida flagramos um inseto muito esquisito em plena hora do rango. O bicho-pau nem se abalou com flashes e burburinhos de quem tentava encontrá-lo camuflado dentro do vidro. Dá para encontrar o guloso fazendo um lanchinho em meio aos galhos?

Na sala Universo, outra atração está bem menos escondida. É o espaço dedicado às constelações. O mapa na parede (sempre contribuindo para garantir a acessibilidade) nos permite compreender melhor os desenho que podemos enxergar no céu.

Ali as crianças ficam encantadas com as explicações mirabolantes que os monitores dão para estrelas que formam o desenho de um saci-pererê, uma mula-sem-cabeça… Ou simplesmente ganha algum nome científico ou astrológico.

Os pequenos se encantam também com o Estúdio de TV, montado para simular a gravação de um programa igual aos que a gente assiste em casa. As sessões acontecem a cada hora, mas é sempre recomendável checar os horários ou agendar a visita. Afinal, essa é a hora de mostrar o talento e se ver na telinha.

Outra atividade que acontece periodicamente é a demonstração no laboratório de química. Enquanto o monitor dá uma pequena aula teórica sobre reações e descobertas da ciência, a platéia espera para ver no que vai dar tanta falação.

Durante vinte minutos nos lembramos da época da escola e vemos o monitor se desdobrar para fazer tantas experiências saírem como o planejado. Ou quase… No final, com efeitos pirotécnicos e mirabolantes (e mesmo sem eles), vale a pena presenciar a apresentação.

Arte e história

Mas o passeio pelo Catavento também tem outros atrativos. O espaço antigo guarda muita História. Logo na entrada do Engenho, repare no quadro “Meninos no Balanço”, pintado por Candido Portinari em 1960.


Na sala Alertas para a juventude, um vitral originário da construção, datado de 1924, faz alusão ao cultivo do café e do algodão e aos meios de transporte. Além disso, a obra presta homenagem ao famoso bandeirante Fernão Dias.

Nas estantes da sala anterior, repare nos objetos antigos colocados em exposição dentro dos armários envidraçados: máquinas de custura, de datilografar, telégrafos. Uma viagem no tempo! Na parte de fora, peças do acervo do Centro Contemporâneo de Tecnologia haviam sido transferidas para o jardim há poucos dias. Agora, o visitante pode ver de pertinho um avião dos anos 70, a maria-fumaça fabricada em 1888 e outras relíquias.

Memória e pés no chão

Talvez a maior lembrança desse passeio não tenha sido material. Uma imagem comovente ficou grudada na minha cabeça. A certa altura do dia, meninos e meninas entraram em grupo no pavilhão da Vida. Não deviam ter mais do que 6 ou 7 anos. Alguns estavam descalços. Todos olhavam atentamente para a profusão de cores e informação. Talvez era a primeira vez que adentravam aquele mundo – talvez até no sentido literal. Os rostinhos arredondados, os olhos amendoados e a sincera beleza dessas crianças transpareciam de onde elas vinham. Era um grupo de indiozinhos, como nunca havia visto pelas ruas de São Paulo. A surpresa foi tão grande que até esqueci a máquina fotográfica. O registro dos índios brasileiros ficou só dentro da cachola.