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O convite aguçou a vontade de conhecer um ensaio de escola de samba. Ontem, lá fomos nós percorrer as ruas de São Paulo até chegar à Av. Casa Verde, no bairro do Limão. O lugar fica meio escondido para quem não conhece esses lados da capital. É mais fácil se localizar quando surge o imponente prédio do jornal O Estado de S. Paulo.

Umas duas ruas para trás… Lá está ele, colorido, vibrante – o galpão da Casa do Samba da escola Mocidade Alegre – anunciando o evento que logo vamos presenciar. Mais do que isso, faremos parte de algo que é comum, faz parte do cotidiano de quem nasce com o samba correndo nas veias.

Samba no pé

Como disse, a idéia (pelo menos a que eu tive quando aceitei o convite) era ir até lá para ver uma noite de preparação para o Carnaval. Mas desde o começo, confesso que subvertemos a programação. O cachorro-quente suculento e muito engordativo vendido em muitas ruas por aí foi substituído pelo engomadinho sanduíche do Subway; a multidão cantando alegre dentro do barracão foi trocada pela calma expectativa do lado de fora. A passividade de quem veio só olhar virou a empolgação de quem… bem, isso fica para logo mais.

Às 21 horas e 30 minutos abrem-se as portas. De lá saem os meninos e meninas da bateria, com instrumentos devidamente empunhados e ansiosos pelo batuque que virá. Eles encontram a ala das Baianas, com senhoras devidamente trajando um “saião” rodado em cor escarlate. As pessoas se agitam, o trânsito pára, a pequena multidão está pronta para acompanhar o cortejo de um entre tantos outros ensaios que serão feitos até que chegue o grande dia.

Turma do barulho

Geralmente São Pedro gosta de acinzentar o céu paulistano nos finais de semana. Mas ontem fomos surpreendidos por uma sexta-feira de bela lua cheia. O aguaceiro resolveu cair mais cedo, e aliviou o temor de ficarmos molhados justo na melhor parte: o show vai começar.

O vestido traz a cor da escola

Caminhamos no escuro por umas vielas de muitas casas e alguns prédios que destoam na paisagem. Das janelas e varandas, os moradores parecem temer o pior – para eles. A turma do barulho chegou e vai animar a festa. Como disse minha prima: “aqui nem parece São Paulo”. O clima de cidadezinha do interior dá ainda mais charme para a noite. Ah, outro detalhe importante: “ainda bem que a novela já acabou”. É, não devia ser fácil ouvir o italiano meia boca com vários tambores e tamborins soando em alto e bom som no asfalto. Então, o melhor é se juntar à multidão, ou aproveitar para ver tudo de camarote.

Frio na barriga

Solange Bichara, presidente da Mocidade Alegre

Confesso que estou planejando uma reportagem em pleno sambódromo. Imagina: mostrar aqui o que rola na avenida? Por isso fui ver como era essa história de desfilar vestindo a fantasia de uma escola de samba grande e importante. Por isso, outra prima surgiu para nos colocar na segunda fileira da ala que acompanha as Baianas. Bacana, de meros expectadores nos transformamos em passistas, ou sei lá como chamam aqueles que agitam a platéia, entoam hinos e samba enredo, tentam convencer os jurados com a coreografia. Estávamos lá, plantados, sem saber para onde ir. Pior, eu me sentia como esses turistas “gringos” típicos do nosso imaginário, que querem fotografar tudo, aprender a sambar como a rainha de bateria (impossível!), e ficam maravilhados com… um ensaio de escola de samba. Sim, entre nós não havia diferenças naquele momento. Éramos estrangeiros em nossa própria terra, cercados pelas senhoras que vivenciam o amor pela comunidade, a porta bandeira e o mestre sala que rezam para que tudo saia perfeito, os moradores que suam a camisa com fervor e querem ver sua escola campeã.

Cuidando da harmonia

As broncas e os olhares de reprovação serão comuns ao longo do trajeto. Aliás, pernas pra que te quero. O trajeto é loooooongo. Perdi as contas, mas acho que ali ficamos caminhando umas duas horas. Passamos pelas mesmas ruazinhas escuras, por avenidas importantes, pelo trânsito intenso, pelos moradores que desejariam o sono gostoso.

Os primeiros passos são hiper desajeitados. Tímidos, ouvimos as instruções, tentamos não desalinhar a fila, imaginamos o sambódromo lotado só para nos ver. É preciso seguir à risca o que devemos fazer. Vale ponto! Vale o troféu!

“Força, Raça e União!” Grito lançado, chegou a hora. A mulher ao meu lado deve ter os seus 90 anos e canta com a alma. Dá até vergonha. Eu nem sei do que se trata o samba enredo.

Os braços levantam descoordenados, o passo descombina… Mas na décima vez repetida, já consigo bater palmas na hora certa, sei cantar “Gostoso é ser criança, guardar na lembrança…”. Na milionésima vez entendo que a certa altura da música preciso andar imitando um robô.

O primo japonês e a porta-bandeira

A porta bandeira continua emocionada atrás de mim, empunhando a bandeira como se fosse a maior riqueza de sua vida. O menininho logo à frente canta bravo para quem sai do compasso. A outra senhora ao meu lado não pára de me colocar na ordem certa. E meu primo japonês quer saber onde fica a saída.

Dobramos a última esquina e não conseguimos parar de repetir a mesma toada. Um milhão quinhentas e vinte e cinco vezes depois… Acho que agora estamos preparados para enfrentar os 30 minutinhos no chão da avenida. Será que até lá dá tempo de aprender a ter samba no pé?