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Dessa vez, na segunda reportagem da série Personalidades, decidi publicar a matéria que escrevi sobre o artesão Roberto Ribeiro. Minha câmera ainda não teve a oportunidade de acompanhar o seu trabalho. Por isso, preferi usar as palavras na tentativa de traduzir o seu talento.

 

“Arte Solidária” ensina técnicas artesanais para jovens em São Paulo e interior

O artesão Roberto Ribeiro, professor do projeto em Potim, fala sobre a importância da valorização do artesanato

 
Potim é um ponto perdido no mapa. Assim como Miracatu. A primeira fica a 10 Km de Guaratinguetá (SP), terra de Frei Galvão. Já a segunda é considerada o portal do Vale do Ribeira e está a 137 Km da capital paulista. Em comum, as duas cidades ganharam o projeto Arte Solidária, que oferece aulas de artesanato e empreendedorismo e capacita os jovens para o mercado de trabalho.

A iniciativa nasceu da parceria entre a ACLI (Associazioni Cristiane Lavo-ratori Italiani) e o Instituto Nacional Cidadania e Trabalho. A primeira tem origem italiana, existe há mais de 60
anos e trabalha para fomentar o reconhecimento dos direitos de cidadania. A segunda, uma organização privada sem fins lucrativos, busca criar oportunidades para setores marginais da sociedade. Ou seja, ambas se propõem a ajudar os jovens a terem um futuro profissional mais promissor.

No Arte Solidária da capital, os alunos aprendem a trabalhar com jóias, filtro de café e esculturas em papel. Em Miracatu, têm aulas de artesanato com fibra de bananeira. E no município de Potim conhecem o trabalho com fibra de taboa, uma planta que vive em águas rasas e atinge três metros de altura.

Potim

A cidade tem 19 mil habitantes e poucos afazeres. A economia básica da população consiste na agricultura de subsistência e criação de animais. Além disso, pequenas empresas produzem material usado na vizinha Aparecida do Norte. São imagens de santos e penduricalhos vendidos nas lojas que aproveitam o movimento em torno do Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida.

Para sobreviver e garantir outro meio de ganhar a vida, Potim participa do Arte Solidária desde maio. É lá que o artesão Roberto Ribeiro, professor do curso, abre caminho para os jovens descobrirem as belezas que a espiga de taboa pode produzir. E faz a sua parte na divulgação de uma cultura que não deveria ser esquecida: o aprendizado passado de pai para filho.

Trabalho de formiguinha

Quando criança, Roberto aprendeu com a mãe a arte do que hoje é sua profissão. “Toda a família faz artesanato para sobreviver, desde as minhas avós”, conta.“Estamos na quarta geração de artesãos”.

No começo, vendiam seus produtos para pessoas conhecidas. Agora, comercializam as peças em lojas de São Paulo, Rio de Janeiro e Campinas. Entre os clientes estão a Tok & Stok e a ONG Orientavida. Mas quem quer conhecer o seu trabalho pode encontrá-lo no Mercado Municipal de Guaratinguetá.

Tanto sucesso não veio por acaso. “Nosso país descobriu que o artesanato, que é ótima fonte de renda e deixou de ser um subproduto para aparecer nas revistas de decoração e ambientes sofisticados”. Para acompanhar o progresso do novo objeto de desejo, Roberto diz que é preciso muito estudo sobre as mudanças de comportamento. “Só assim conseguimos produzir peças bonitas para satisfazer os clientes que buscam o melhor”, aconselha.

Peças produzidas no curso Arte Solidária, em Potim

Vida longa ao artesanato

As instituições públicas são fontes importantes de apoio ao trabalho artesanal. Desde 1975, o governo paulista mantém a Sutaco (Superintendência do Trabalho Artesanal nas Comunidades), uma autarquia que coordena o Programa do Artesanato Brasileiro no Estado, auxilia na comercialização das peças e emite a Carteira de Identificação do Artesão, credenciando e legitimando a profissão. Roberto faz questão de mencionar também o SEBRAE, que “está sempre presente, dando novas oportunidades”, e a Casa do Artesão. “Vejo uma em quase todos os lugares”, alegra-se.

Mas será que essa ampla divulgação pode causar certa globalização do artesanato? Para Roberto, isso deve ser evitado. “O ideal é manter a tradição nas pequenas cidades para, então, levar isso para os grandes centros”, diz. Ele cita o Revelando São Paulo, que chegou à sua 14ª edição nesse ano, como um exemplo de que é possível estabelecer um processo de valorização do regionalismo. O evento, realizado pela Prefeitura e pela Secretaria de Cultura de São Paulo, divulga a cultura tradicional do interior. Segundo Roberto, manter as raízes é fundamental. “O artesão deve ficar onde tenha matéria-prima e espaço para levar a tradição adiante”.